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Mergulhar na Surpresa – Faixa a Faixa
Por: Mauricio Pereira
16 de setembro de 2015

mergulharPor conta duma temporada do meu show “Mergulhar na Surpresa” esse ano, eu resolvi comentar o disco faixa a faixa e ir postando na page do evento no Facebook, aos poucos, pra divulgar o show, e tal.

 

De repente apareceu o Uia Diário e me sugeriu publicar esses textos por aqui. Gostei da ideia. De vez em quando é bom escrever um causo, de modo que tá aqui pra vocês um pouco da história desse trabalho, que começou a nascer em 1994, nuns shows de piano e voz que eu fazia com o Daniel Szafran, que acabaram dando uma liga danada, a gente, o repertório, o formato.

 

Em 98 gravamos o disco e, mesmo com o tanto de volta que o mercado, o sentimento do público e o mundo dão, esse trabalho segue na estrada ainda hoje, talvez até dum jeito mais forte do que na época em que ele saiu. Eu sinto que o público tem vindo ver o show com uma sede danada. E a gente (eu mais o Daniel, e agora também o Gabriel Basile, na bateria) ainda vai com muita sede ao pote pra fazer esse show.

 

Enfim, o trabalho do Mergulhar é uma safra parruda de canções somada a um jeito de tocar essas canções que só existe quando o Daniel e eu estamos no palco.

 

Física e química, diria eu.

 

Vamos pras canções.

 

1. “Soley, Soley”, é um sucesso de rádio do começo dos anos 70. Eu nem lembrava quem cantava isso, comecei a cantar no intervalo dum ensaio, o Daniel conhecia, já meteu a mão no piano e cantou a segunda voz. Ficamos fazendo só o refrãozinho e pareceu suficientemente bom. Anos depois, na época de fazer o disco, a Adriana Bueno, que produziu junto com a gente, chegou com um compacto. Ela tinha o disco… Middle of the Road, é o nome da banda, e você vê o original aqui. E a versão do Mergulhar você ouve aqui.

 

2. Você chega num lugar onde você não conhece ninguém, onde você não se reconhece em ninguém. E depois de um tempo, nota que quem acaba colando em você são justo os diferentes, os malucos, os viralatas, os xeretas. Carinhosamente. “Cachorra” é um afago nos diferentes e o tanto de carinho que eles costumam carregar. O Daniel tocou piano e cantou; eu cantei e toquei sax tenor e soprano. A gente uivou um pouquinho, porque de vez em quando acontece de a gente se sentir também uns tipos meio diferentes. E a gente descobriu que essa pequena canção é um arembi poderoso. Ouve aqui.

 

3 e 7. Aqui eu vou juntar numa playlistzinha um par de canções que eu escrevi pr’Os Mulheres Negras e reli no Mergulhar: “Imbarueri” e “Música Serve Pra Isso”.

 

Vira e mexe eu releio alguma canção que eu já gravei, seja pra buscar algo que eu acho que tava faltando, seja pra tirar algo que eu acho que tava sobrando, até achar um arranjo definitivo. Aí eu não mexo mais. Eu gosto do jeito que “Imbarueri” foi gravada nos Mulheres, mas eu sentia ela mais delicada. Aí, uma vez eu tava andando de trem no interior de SP (perto do fim dos trens de passageiros). Aquele calorão típico, dei um pulo no vagão restaurante pra tomar alguma coisa. Tava vazio, mas tinha dois garçons de jaleco branco, cada um olhando pruma janela dum lado diferente do trem, total cara de tédio, assobiando música caipira em terças. Por um momento eu devo ter pensado comigo mesmo: “música serve pra isso…”. Quando eu fui gravar ela com o Szafran o assobio reapareceu na intro, sudestinamente caipira, cortantemente melancólico. O resto da versão é filho do assobio, foi só ser singelo, e juntar o pandeiro do Luiz Guello pra dar uma pitadinha de brasuquice nela.

 

Já o “Música Serve…” eu tinha pensado ela na época do Mulheres como uma música que Chitãozinho & Xororó pudessem cantar. Mas quando eu gravei o Mergulhar tava levando tudo pra delicadeza, então chamei meu amigo violeiro Paulo Freire pra tocar viola dum jeito mais chorado, pra eu cantar dum jeito mais declamado junto com o Daniel, cuja voz é irmã da minha (assim como a voz do Chitãozinho é irmã da do Xororó). Ouve as duas: ow.ly/SmFru.

 

5. Cantar “Wanda” tem a ver com conhecer o trabalho do cantautore italiano Paolo Conte, que compôs ela. E eu conheci o trabalho dele assim:

 

Cena 1, fim dos anos 80.
Um dia meu pai me chega com uma fita cassete que um amigo jogou na mão dele, de um cantor italiano que, segundo o cara, eu tinha que conhecer. Bô… Catei a fita e pensei: “lá vem mais Pepino di Capri…” Levei pra casa e meti em alguma caixa, gaveta ou armário daqueles em que nunca mais na minha vida eu ia lembrar onde tava.

 

Cena 2, entre 92 e 94, acho.
Uma noite, voltei tardão do Fanzine (um talk show diário do Marcelo Rubens Paiva na TV Cultura, eu era o cantor na banda do programa). Ligo a tevê a cabo – que era relativa novidade, ainda não tinha internet e de vez em quando chegava música interessante por ali – e começa a tocar e cantar um pianista italiano loco, loco, loco, mas tão loco que eu fiquei apaixonado instantaneamente pelo cara. Aí, aparece o Nelson Motta e diz o nome dele: Paolo Conte. Catei um lápis do lado do telefone (fixo, óbvio…) e anotei o nome num pedaço de papel (que em meia hora eu já não lembrava mais onde tava, óbvio…). Ainda bem que eu nunca mais esqueci desse maluco velho italiano.

 

Cena 3, tipo 96.
Eu já tava fazendo os shows do Mergulhar com o Szafran (embora eu não soubesse que aquilo já era o Mergulhar). Belo dia tou em casa jogando tralha fora – algum domingo bolorento em que não tem mais nada de pior pra fazer – me passa pela mão uma fita cassete mofadaça. Pensei, “putz, é aquela fita italiana do amigo do meu pai, deixa eu ver o nome do cantor antes de jogar no lixo…”. Era o próprio.

 

Bom, daí pra frente, como eles dizem no blues, “that’s a story everybody knows…”. Escolhi “Wanda” porque tinha um grau de sonsice e safadeza que me deixou pasmado, que é como eu sempre me sinto quando ouço essa canção.

 

Ouve aqui na versão do Conte. E a minha – com Szafran no piano e na segunda voz, mais mestre Mario Manga no bandolim – você ouve em ow.ly/SmFZO.

 

13, 4 e 9. Vou juntar mais três canções noutra pequena playlist, três páginas (absolutamente) românticas do Mergulhar: “Estrelas”, “Tudo Eu Te Dou” e “Tu”.

 

“Estrelas”, que eu já tinha gravado no meu primeiro disco solo, o “Na Tradição”, é mais ou menos como se o Romeu (da Julieta) tomasse um ácido e ficasse olhando pro céu devaneando com a amada, tipo: todas as estrelas do mundo. Pensei nela como uma salsa, mas o Szafran recebeu o espírito dum standard, então foi assim que ela incorporou: num standard.

 

“Tudo Eu Te Dou” é uma canção de amor comme il faut, como se dizia antigamente. Mais que uma declaração de amor, uma declaração de princípios. Nessa aqui o Romeu (da Julieta) tomou um ácido e foi pro circo viajar na equilibrista. Parceria com o Szafran, que teve a manha de musicar essa letra completamente quebrada que eu dei pra ele, tipo: tá em 5 por 4 e continua romântica, dá pra acreditar?

 

E “Tu” foi feita pra cantar o banzo que o homem contemporâneo sente quando as empoderadas somem pra cuidar da própria vida e deixam ele sozinho devaneando feito um Romeu (já sabem qual Romeu). Escrevi no dialeto paulistano que eu ia usar fartamente quando fui pro exílio compor o “Pra Marte”, embora com um caminho harmônico e melódico que na minha fantasia é completamente carioca: acho que essa foi a primeira bossa nova que eu fiz.

 

Como sempre, o Szafran traduziu pro piano tudo o que eu queria expressar.

 

Ouve as três em seguida: ow.ly/SmGmO

 

6. Eu já tava comentando o Mergulhar aos poucos, aí o Felipe Cordeiro me disse que queria cantar “Um Dia Útil” junto comigo no El Grande Concerto IV da Casa de Francisca, que rolou no fim de agosto lá no Auditório Ibirapuera. Aproveitei pra reavivar a memória de como surgiu essa canção.

 

Ela também surgiu na época em que eu era cantor no Fanzine, o programa do Marcelo Rubens Paiva na TV Cultura no começo dos anos 90, que eu citei ali pra cima. Era um programa diário, ao vivo, eu chegava lá no meio da tarde, voltava pra casa de noitão: em 2 anos de trabalho acho que eu cantei umas 500 músicas lá. Vocês podem imaginar como é que devia estar o meu cérebro naquela época né? Cada neurônio que eu tinha disponível tinha uma canção dentro.

 

Aí, pra compor foi fácil, bastou chegar uma noite em casa absolutamente acelerado e dar uma trombada naquela quietude de bebê dormindo. Bateu a insônia, o filme foi rolando na minha cabeça e eu já saí cantando…

 

Ouve: ow.ly/SmGLc

 

11. “Pan y Leche” eu fiz com o Martim no colo (hoje ele é aquele compridão que toca guitarra e canta n’O Terno).
Ele era bebê, a mãe dele foi trabalhar, fiquei em casa compondo com o moleque no colo e uma sopa de mandioquinha na panela de pressão. Me veio aquela sensação de eu ser um pai latinoamericano com o filho no colo, imaginando o que será que seria do futuro, o meu, o do meu filho, o do meu país. Me veio a imagem do pai da Mafalda (aquela do gibi do genial cartunista argentino Quino), fazendo o possível pra criar um filho (e terminar de se criar) num mundo louco. Exatamente como é agora. Singela e reivindicadora, eu já tinha gravado essa canção no meu primeiro disco, o “Na Tradição”, mas queria levar ela dum jeito mais intimista, mais delicado. Como sempre, o Daniel resolveu a questão: salve Szafran…

 

Ouve aqui: ow.ly/SmH7D
(ouve também essa versão que o produtor Marcos Xuxa Levy fez com os músicos cubanos numa das suas “Barcelona Sessions”: youtu.be/2yqjJ72KIxI)

 

8. “Tranquilo” é um blues. Metafísica pra lamber ferida, pra cantar de longe, sozinho, enviesado. Às vezes eu ouço ela modal, nordestina, sertaneja, um acorde imóvel duma rabeca, um dia ainda gravo desse jeito… Enquanto isso não acontece, eu choro essas pitangas sudestinamente, na voz, no sax soprano e no ombro do Daniel, sempre ao meu lado, carregando seu piano, e eu pensando “eu tenho a alma lavada naquela poça encarnada onde a moça bebe água”… Ouve: ow.ly/SmHCT.

 

10. “Ironia” é do Paulinho da Viola, eu ouvia muito no rádio quando era pequeno. Essa história de “jogam para mim um sorriso de ironia, sabem que a minha alegria terminou” me impressionava, pelo tanto de sague-ruim que ela continha. Ficou na minha cabeça. Gravei com um certo ódio rock’n’roll, sem perder o samba. De tanto amassar a música, acabei quebrando a célula rítmica do tamborim e fazendo a música em 14 por 2 (sete tempos mais sete). Ouvindo e tocando nem me pareceu tão antinatural assim: ficou agressivo e sambado, com aquela dureza de paulista branco, como eu queria. Mestre Luiz Guello toca pandeiro e tamborim, e tem o Daniel no piano e eu na voz e no sax tenor. Ouve em ow.ly/SmHX4.

 

12. “Mergulhar na Surpresa” dá o nome pro disco. Às vezes parece que ela é uma série de haicais colados, mas no duro ela é uma foto, eu apenas contei coisas que aconteceram durante um segundo. E contar as coisas com palavras leva tempo, então um flash virou uma canção. O nome saiu da boca do meu filho Martim (de novo ele, o cara só podia ser músico mesmo…), a gente tava numa roça, ele tava do meu lado, viu aquilo tudo acontecer e quis mergulhar numa represa que tinha ali, e, no afã do desejo, trocou um pouco de letra…

 

Eu ia gravar o piano em 3 canais, pra separar graves, acordes e os arpegios no agudo. Só que o Daniel chegou lá e conseguiu tocar as vozes todas de uma vez, como se fosse uma fuga. Então fizemos ao vivo mesmo, quem sou eu pra desobedecer as forças da natureza, né? Depois, só gravamos o violoncelo singelo do mestre Mario Manga. Eu contei essa história ao vivo pro Canal Sonda (assiste aqui). E ouve a canção: ow.ly/SmIiX.

 

14. Sobre “Coyote (Coiote)”, eu tinha escrito isso sobre ela lá no SoundCloud há muitos anos e me pareceu que ainda vale, olha só: “Jurupurdeus: eu fiz essa lavando prato pra espantar a dor de corno. Fiz em inglês, levei uns 10 anos pra traduzir. Agora ela tá aqui, bilíngue, Szafran canta a parte em inglês, depois dobra a voz comigo na parte em português. Eduardo Cabello faz a guitarra oblíqua, dissimulada e com olhos de ressaca”. Ouve no SoundCloud.

 

15. Em “Recipiente”, a letra é do Skowa, eu achei num baú na casa dele. Todo mundo acha que a letra é minha, mas não: dei só uma lustradinha nela, que nem se faz com a lâmpada do Aladim. Aí o gênio apareceu e me concedeu um desejo. Desejei fazer uma melodia que não machucasse aquela letra tão lírica, tão delicada. E fiz. Aqui ela é uma jam session, num take completamente ao vivo, na unha, sem clique, já na madrugadinha, com todo mundo meio grogue, pelos mais variados motivos. O time é o múltiplo Daniel Szafran no violão de nylon, o lírico Luiz Waack no violão de aço (o solo é dele), mais eu e o Skowa cantando. Ouve em ow.ly/SmIpr.

 

17. “Curitibana” é música clássica sudestina, foi sucesso na voz de Tonico e Tinoco. Acho que o nosso jeito de chorar o blues aqui no sudeste é a música caipira, em especial a moda de viola. Daí pra virar rock’n’roll é um pulo. E foi assim que eu e o Daniel sentimos ela,  ele no piano – descendo a mão e fazendo segunda voz; eu na voz. Escuta só: ow.ly/SmIvR (e aqui você ouve ela na voz do Tonico e Tinoco, ao vivo no programa da Inesita Barroso no começo dos anos 80. Covardia, né?)

 

16. “Inventor Brasileiro” eu fiz eu tava num vilarejo em Minas, pra lá de Diamantina. Já tinha ido na cachoeira, já tinha tomado a cachacinha e chegando pro povoado ouvi um saxofone tocando. Fiquei espantado e fui lá ver. Tinha um senhorzinho tocando um sax feito de bambu, que ele mesmo tinha feito. Eu falei que ele era um gênio. Ele me mostrou um monte de inventos e me falou da solidão de quem vê o mundo meio ao contrário. Eu dei um abraço reverente nele, e por um instante tive a impressão que trespassou o meu peito a solidão de quem vê o mundo meio ao contrário. Nesse take o Paulinho Lepetit toca aquele baixo infernal dele colado na mão esquerda do piano do Daniel, que também faz a segunda voz. Ouve em ow.ly/SmIC3.

 

18. “Quem é Quem” é um fado. Ou devia ser. Nada como ser paulistano: a gente destrói tudo. Ainda bem que a arte é feita disso também. Enfim, comecei a compor quando voltei duma viagem d’Os Mulheres Negras pra Portugal, em 89, que me causou forte impressão. Aí o meu Jimmi Hendriz interno falou mais alto, e o Daniel – canhoto como o Hendrix – entendeu exatamente o que ele queria dizer (ele toca piano e canta comigo). Escuta: ow.ly/SmITk.

 

O Terno (banda do meu filho Martim, o tal que fica me soprando nome de música) regravou essa canção lindamente no primeiro disco deles, o “66”, e me chamou pra tocar junto (outra longa história…). Ouve a versão deles: youtu.be/gITqICzWpDQ.

 

19. “Modão de Pinheiros (ou É Por Isso Que As Pessoas Mudam de Bairro)” eu fiz numa época em que tava andando muito ali pelo bairro, pra cima e pra baixo. Fiz no chuveiro (no tempo em que ainda dava pra compor uma canção tomando banho). A gente bateu um mi, pra me dar o tom, eu cantei a capela, bonitinho. Aí o Tonho Penhasco ouviu, ouviu, foi pra a casa dele e voltou na semana seguinte com 4 linhas de guitarra escritas. Caso típico de inventor brasileiro, o Tonho, embora nessa época ele ainda não fizesse seus instrumentos, como faz hoje. Mas já dava pra perceber que isso um dia ia acontecer. Daniel faz a segunda voz comigo na frase final: ow.ly/SmJcm.

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Compositor, cantor, saxofonista e produtor paulistano, tem 8 discos gravados.  Junto com André Abujamra, é um d’Os Mulheres Negras. Jornalista, ator e locutor/apresentador. Realiza oficinas sobre canção popular. Está no “Guinness Book” por ter feito o primeiro show brasileiro ao vivo via internet, em 1996.

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