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Ocupar.Lutar.Resistir.
Por: Luciano Malásia
09 de dezembro de 2015

beto bruno2015 é um ano que não vai ficar na saudade.

 

Além do mar de lama em Brasília e Mariana, assisto estarrecido ao crescimento de uma mentalidade retrógrada e conservadora, que tenta impor retrocessos sociais e parece não se importar em jogar o país em um vácuo democrático ao tentar promover um terceiro turno da eleição presidencial através de um processo que me parece  equivocado.

 

Me confesso extremamente decepcionado com política. E que é um assunto delicado de abordar. Sempre tento evitar pois atualmente tem gerado inimizades. O certo é que atravessamos um momento delicado, turbulento e perigoso.

 

Meus textos aqui buscam falar sobre música, cultura e atividades correlatas. Sempre através do meu ponto de vista, que passa pelo filtro das coisas que eu acredito. E sempre tentando passar uma mensagem positiva. Então nesta derradeira colaboração do ano vou falar de algo que de certa forma me deu alegria e crença de que algo pode mudar de alguma forma.

 

Perdi as esperanças utópicas de que podemos unificar o país e diminuir as diferenças sociais de forma pacífica e democrática. A maioria do povo brasileiro tem um comportamento político imaturo e parece não ter muito claro que quando se elege alguém para um cargo público estamos delegando o poder de decisão sobre nossas próprias vidas a esta pessoa. As pessoas tentam votar no menos pior segundo suas convicções e por vezes conduzem ao poder pessoas completamente despreparadas para lidar com a função. Quando não notórios criminosos  disfarçados de políticos profissionais. Dão a chave do galinheiro para as raposas.

 

Enquanto não mudarem as regras e atores do jogo político e as pessoas não abandonarem a postura de indignação seletiva em que partidos políticos são times de futebol e cada um só torce para o seu, não daremos um passo adiante. Na verdade andaremos para trás.

 

Como o cenário em Brasília é muito complexo e caótico, vou falar de algo que acontece a nível local que é o embate do governo contra os estudantes em São Paulo.

 

Sempre me causou estranheza que um político como Geraldo Alckmin tenha um governo aprovado pela esmagadora maioria dos eleitores em São Paulo. Não sou filiado nem simpatizante de nenhum partido, mas sou totalmente contra o tipo de perfil político que o governador paulista representa: mentiroso, manipulador, truculento, evasivo e incompetente.

 

Mas parece que finalmente ele está começando a ter seus métodos questionados.

 

A desastrosa tentativa de uma reorganização escolar pouco explicada, que dá segmento ao sucateamento que este governo tem realizado na educação, não foi bem recebida. Por trás de uma tentativa mal disfarçada de economia, o governo de São Paulo anunciou um plano sem detalhes técnicos ou estudos que dessem justificativa à sua implementação. Simplesmente planejou fechar 94 escolas do Estado. Algumas  com desempenho acima da média no Idesp, índice que o próprio Estado utiliza para avaliar o ensino. Atitude criticada por especialistas e inclusive pela própria imprensa que dá apoio ao governador em troca de polpudas verbas publicitárias.

 

Nenhum tipo de consulta ou negociação com os alunos, funcionários e professores que seriam diretamente afetados pela medida foi feita. Isso desencadeou um processo de resistência em que os alunos resolveram se organizar, protestar e ocupar as escolas que seriam fechadas. Com apoio da população e dos pais dos alunos.

 

As tentativas de desqualificar e politizar o movimento e a truculenta repressão da PM aos protestos pacíficos dos alunos acabaram sendo prejudiciais ao governador, que enfrenta grande queda de popularidade em sua gestão comprovada por pesquisas recentemente realizadas.

 

Ninguém gosta de ver jovens estudantes sendo agredidos pela polícia ao expor seu descontentamento com medidas que afetam seu dia a dia.

 

O embate acabou trincando a vitrine do governo e causou a queda do secretário de educação e do chefe de gabinete da pasta, e um recuo do governador, que acabou voltando atrás na implantação do projeto e vai discutir as bases de um novo projeto de reorganização em 2016 com a sociedade.

 

Muitos artistas ficaram sensibilizados com a coragem e o empenho dos alunos e abraçaram a causa. Nos dias 6 e 7 de dezembro, foram organizados shows para promover apoio e dar visibilidade a esta luta legítima. E também arrecadar mantimentos e material para os alunos que se revezam na missão de ocupar e, em muitos casos, promover reparos e mutirões de limpeza em suas escolas. Algumas totalmente abandonadas pelo poder público com o nítido objetivo de justificar suas atitudes.

 

Aproveitei que meus amigos da Cachorro Grande iam participar de uma atividade na E. E. Caetano de Campos e fui conferir de perto. Até como forma de saber mesmo o que acontece. Não dá para confiar no que está sendo noticiado pela grande mídia, que em muitos casos procura retratar os estudantes como marginais ou os acusam de estar atrelados a grupos políticos contrários ao governo.

 

O que vi me deixou esperançoso com essa juventude.

 

Não vi bandeira de partido nem sindicatos.

 

A escola é linda. Gigantesca. E é impossível não pensar em especulação imobiliária como motivação por trás desta atitude. As construtoras lucrariam muito ao colocar algum espigão em frente à revitalizada Pça Roosevelt, no local onde fica essa escola.

 

Vi SOMENTE alunos da escola, alunos de outras escolas que estão solidários, pessoas da comunidade, público em geral e artistas orgulhosos da atitude dos estudantes. Clima familiar e alto astral. Pessoas com brilho no olhar, com alegria pelo engajamento dos artistas na causa. Os próprios artistas felizes e orgulhosos em participar, sem cachê e contornando as dificuldades técnicas com bom humor.

 

Conversando com os alunos, descobri que a realidade do ensino em SP está bem complicada. Depois de perder aulas em função da greve dos professores, eles tiveram que sacrificar o final do ano nesta luta. Relataram que enfrentam salas de aula super lotadas, falta de estrutura, falta de professores e material e também a própria desmotivação dos docentes, que recebem pouco para tão nobre missão: lecionar e preparar os jovens para o futuro.

 

O mais legal é que tudo o que aconteceu acendeu uma centelha de esperança nos alunos. Segundo palavras deles mesmos, “deixou de ser apenas pela reorganização ou fechamento das escolas, queremos uma escola justa, igualitária e inclusiva, sem distinção de raça, religião, cor, classe social ou gênero”.

 

Eles pretendem ficar nas escolas até o Natal, como forma de pressionar o governo e mostrar que, se necessário for, perderão o ano letivo, mas não abrem mão da sua escola.

 

Uma menina me falou que o governo está completamente equivocado. Não tem que fechar escolas, tem que melhorar as que existem, pagar bem os professores e funcionários. E abrir mais escolas.

 

Passa longe da ideia geral de que jovem é alienado.

 

Outra coisa muito interessante que descobri através de uma amiga cujo filho está participando da ocupação de outra escola: na maioria das ocupações, quem tomou a iniciativa foram as meninas.

 

Parece meio bobo, mas é muito bom que partam do suposto sexo frágil as atitudes que culminaram neste processo lindo de ver. Gostaria muito que este espírito contaminasse os corações em geral e que as pessoas se unissem para mudar o que for preciso em prol de uma sociedade mais humanitária, unida, justa e feliz.

 

É a volta da utopia? Espírito de Natal? Ingenuidade?

 

Talvez. Mas desejar coisas boas nunca é demais.

 

Já fui jovem, também e agia da mesma forma. Queria mudar o mundo, salvar as pessoas, ajudar quem precisasse. Isso é inerente aos jovens e é muito bom poder vê-los pondo em prática. Nossa linda juventude. Página de um livro bom.

 

Despeço-me desejando a todos um 2016 suave e lindo.

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