
Estou lendo os quadrinhos do Scott Pilgrim, depois de já ter assistido o filme (incrível) umas três vezes, e o que mais está me impressionando é a semelhança entre o gibi e o filme. Tão parecidos que tenho a sensação de estar vendo cada cena do filme a cada quadrinho, escutando as vozes do atores em cada fala dos personagens.
É sempre um exercício curioso esse de ler a obra na qual um filme é baseado depois de tê-lo assistido. Isso já aconteceu algumas vezes na minha vida (citando alguns que consigo lembrar): Na Natureza Selvagem, Onde Vivem os Monstros e O Guia do Mochileiro das Galáxias.
Em todos esses casos, inevitavelmente, lembrava da cara dos atores ou das cenas específicas no filme. Porém, numa história em quadrinhos isso fica ainda mais forte, pois também estamos lidando com imagens – e ação, movimento. Os livros de Bryan Lee O´Malley são cheios de vida, com personagens ótimos – complexos e com personalidade – e, como toda boa obra, de difícil adaptação.
Como Ghost World, por exemplo.
Ghost World é um caso de história em quadrinhos muito bem adaptada. Mas diferentemente de Scott Pilgrim, o gibi de Daniel Clowes foi pro cinema com uma história bem diferente da original. Alguns personagens, como Seymour (interpretado por Steve Buscemi), nem existiam no livro. Outros, como Josh, perdem bastante importância no filme.
Talvez por isso sempre tive a ideia de que boas adaptações de obras literárias para o cinema eram aquelas que mais fugiam do material original (o roteiro de Ghost World é escrito pelo próprio Daniel Clowes). Mas essa ideia vai por água abaixo com Scott Pilgrim Contra O Mundo. A adaptação é bastante fiel ao livro e não deixa de ser genial.
O diretor Edgar Wright faz bom proveito de tudo aquilo que não podia ser feito no quadrinho. Como há muita influência de videogames, usa sons específicos e efeitos muito legais, tipo slow motion, quando há algum K.O. Há também a música, que não pode ser reproduzida no papel. Beck e os membros do Broken Social Scene fizeram as canções da banda de Scott Pilgrim (Sex Bob-Omb) e das bandas adversárias (nas batalhas de bandas) também.
Tirando a escolha de Michael Cera – muito chato e inexpressivo – para o papel principal, tudo é bem feito e cheio de referências pop. Um grupo bacana de atores jovens (Mary Elizabeth Winstead, Kieran Culkin, Alison Pill, Mark Webber) e uma linguagem bem acessível. Difícil entender por que o filme não foi um sucesso de público. Tanto a história em quadrinhos quanto o filme são altamente recomendados. Em qualquer ordem.
* Texto publicado originalmente em www.acentonegativo.blogspot.com
CIRO HAMEN É SANTISTA (DE CIDADE E DE TIME), MAS ESTÁ SEMPRE EM SÃO PAULO. É ADEPTO DA “ROLADA” E PODE SER ACOMPANHADO PELO TWITTER @ACENTONEGATIVO

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