tentando manter isso aqui com o mínimo de spoilers possível, só avisando
Depois de ler várias críticas – bem divididas – de A Árvore da Vida, fiquei pensando um pouco mais sobre os motivos que me levaram a gostar tanto do filme. Com certeza foi uma viagem prazerosa e ao mesmo tempo incômoda (o que quase sempre é um bom sinal). Durante as suas duas horas e meia de duração o filme me levou em uma jornada de questionamentos feitos pelo diretor Terrence Malick (sobre a existência de Deus, a origem da maldade e a perda da inocência). Engraçada foi a reação dos casais jovens de namorados ao final da sessão.
Já pode pedir o dinheiro de volta? – gritavam os mais engraçadinhos.
Uma reação que considero normal, uma vez que A Árvore da Vida não é o filme tradicional com Brad Pitt e Sean Penn que você vai esperando (um tipo vencedor de Oscar).
Terrence Malick coloca sua obra mais próxima a filmes como 2001 – Uma Odisséia no Espaço. A referência é óbvia já que voltamos aos primórdios da vida na Terra e uso de música clássica com imagens espaciais, imagens da natureza e outras imagens psicodélicas é muito bem feito.
Isso nos leva a uma das cenas chave do filme, quando há o encontro de dois dinossauros, uma alegoria para o primeiro encontro entre seres inteligentes na Terra. Um dinossauro caído levanta a cabeça enquanto o maior se aproxima e pisa nele, não deixando o outro se levantar. Enquanto esperamos uma reação mais forte (um matando o outro por sobrevivência), isso não acontece. A atitude do animal foi de pura maldade.
Voltamos aos seres humanos. O casal protagonista (Brad Pitt e Jessica Chastain) tem três filhos pequenos e descobrimos, logo no começo do filme, que o do meio morre – provavelmente na guerra. Vemos o mais velho (Sean Penn) 30 anos depois e por algum motivo a culpa voltou a tomar conta dele.
Uma das imagens mais fortes do filme e que foi onde o diretor conseguiu captar exatamente esse momento de “perda de inocência” é quando o irmão mais velho pede para o do meio colocar o dedo dentro da tomada de uma lâmpada, dizendo que não há perigo. A tensão é criada e quando achamos que acontecerá algo, não acontece nada (exatamente como na cena dos dinossauros), ao que o garoto (que representa a doçura e inocência da infância) diz “eu confio em você”.
Um pouco depois, o mais velho (que é atormentado pelo pai extremamente rígido e pela mãe extremamente compreensiva) pede para que o do meio coloque o dedo no cano de uma arma com a qual estão brincando em uma floresta. O do meio – confiante no mais velho – enfia o dedo, dessa vez sem pensar muito, e antes disso acontecer o mais velho aperta o gatilho. O silêncio dessa cena é doloroso. Logo depois, vemos a imagem do mais velho cheio de culpa, ciente de que ao mesmo tempo em que se tornou uma pessoa má também pensa “o que foi que eu fiz?”.
O mundo é cruel e cedo ou tarde nos adaptamos a ele, essa é basicamente uma das mensagens mais forte que Terrence Malick tenta passar.
É na perda do filho mais doce que entra o questionamento a Deus, feito pela mãe devota (que escolhe o caminho da graça, um dos dois caminhos na vida que escolhemos, como é falado no começo). Há também o tema da negação da morte, encarnado na figura do pai, que lamenta o seu último encontro com o filho. Lamenta que briga com ele quando ele vira muito rápido as páginas das partituras ao tocar o piano. O pai (que escolhe o caminho da natureza, o outro caminho) em determinado momento percebe que tudo o que tinha na vida era a sua família, aqueles que ama – ou a quem supostamente deveria amar.
As imagens com as quais o diretor brinca, como a da mãe flutuando, ou a daquele deserto que é uma espécie de paraíso – ou purgatório – onde todos se encontram são cheias de simbolismo e acredito que todos esses são bons motivos para ter gostado desse filme. A Árvore da Vida é um prato cheio para quem gosta de cinema, ousado e questionador.
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* Texto publicado originalmente em www.acentonegativo.blogspot.com
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