Ali, cantinas, padarias e pizzarias. A massa é posta à rua. Ao longe, a decoração que remete um festejo junino é dos enfeites convidativos da 85ª Festa de Nossa Senhora Achiropita, que acontece aos sábados e domingos, no bairro da Bela Vista. Mas, convidativo mesmo são os aromas que vêm dali. Massas diversas, fogazzas, polentas e pizzas para acalentar noites frias num dos bairros mais tradicionais de São Paulo.
Abençoa, Achiropita, que aqui me esbaldarei sem remorso numa das trinta barracas comandadas por gente uniformizada de verde e vermelho.
Formado por imigrantes italianos, o bairro é duma importância cultural, histórica e turística à capital. Mas, não para por aí. Foi nos idos de 1940-1950 que o italiano Franco Zampari (1898-1966) fundou o extinto Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, por onde passaram importantes nomes da cena teatral brasileira, como Cacilda Becker, Paulo Autran, Sérgio Cardoso, Walmor Chagas e Cleyde Yáconis.
O faro agora é outro.
Seguindo pela Rua 13 de Maio, parada obrigatória no número 240, sede dos grupos Teatro da Vertigem e Teatro de Narradores. Cá, falaremos sobre ele e sua recente montagem “Cidade Fim – Cidade Coro – Cidade Reverso”, dirigida por José Fernando de Azevedo. E se a cidade se faz avesso do avesso, comecemos pela última parte da encenação, dividida em três partes.
No meio da rua, um homem veste paletó e saia branca a declarar seu amor por uma mulher aos presentes passantes da vez. A fala é do ator Marcio Castro. Ela (Teth Maiello), decentemente loira, não dá ouvidos, tampouco se despede. Pega sua mala vermelha e carona na boleia do caminhão que, em sintonia, passa pela rua no exato momento em que precisa sair de cena, deixando-nos em companhia de outros quatro atores, que transitam e dançam e correm por entre carros. O fluxo não para.
Músicos, cenários, adereços e projeções simultâneas do espetáculo ocupam a frente da sede, onde o público presencia o desfecho de depoimentos reais e fictícios de moradores com intervenções nos bares e cortiços do bairro.
O Teatro de Narradores coloca o Bixiga como personagem no centro de uma reflexão sobre as formas de convívio na atualidade. Os dois primeiros atos, “Cidade Fim e Cidade Coro”, acontecem no interior do teatro, onde a plateia assiste a um filme produzido pelo grupo, com trilha sonora e narração ao vivo, que retrata operários no surgimento do movimento sindical de São Paulo. Em seguida, os atores se colocam mais ao fundo do palco e, sentados e de frente, partilham histórias de vida e fragilidades num jogo cênico intercalado entre a fala de um e outro.
Indicado ao Prêmio Shell como melhor autor a José Fernando e ganhador do Prêmio Cooperativa de Teatro como melhor espetáculo, a peça “Cidade Desmanche” (2009), encabeçou o processo de pesquisa dos Narradores acerca da ocupação artística e da relação de convívio estabelecida com o entorno.
Formada por estudantes de filosofia da USP, há 14 anos o grupo está na lida do teatro enquanto função política, interferindo diretamente em tramas cotidianas.
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SERVIÇO
“Cidade Fim – Cidade Coro – Cidade Reverso”, Teatro de Narradores
Espaço Maquinaria – Rua 13 de Maio, 240, Bela Vista – 11 3853-3651
Sextas, sábados e domingos, às 19h – Até 18/9
Entrada franca / Classificação: 14 anos
Autoria e direção: José Fernando de Azevedo
Elenco: Emerson Rossini, Marcio Castro, Renan Trindade, Teth Maiello e Vinícius Meloni.
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85ª Festa de Nossa Senhora Achiropita (mais AQUI)
Nas ruas 13 de Maio, São Vicente e Dr. Luiz Barreto
Sábados, das 18h às 24h e domingos, das 17h30 às 22h30
Entrada franca
Até 4/9
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