por André Fernandes

publicado em: 22 de Agosto de 2011

Antes de comprar um veículo blindado pense nisso: São Paulo é a terceira cidade do mundo que mais consome veículos blindados, e a única que não vive uma situação de guerra declarada. Pense onde ele te leva e do que te protege. A blindagem talvez evite que você seja alvejado por um tiro, mas não te protege da ignorância das ruas. É preciso conhecer a realidade das ruas para não contribuir com o aumento da diferença entre ricos e pobres.

Agora, se você quer conhecer um pouco a situação de uma região da cidade quase totalmente segregada pelo rio, veja a história da educadora Dag, ou Tia Dag que, com ajuda de um grupo de empresários, realiza um projeto educativo para mil crianças na Zona Sul de São Paulo, à margem da miséria, com objetivo muito claro: diminuir essa diferença.

Enquanto você circula com o seu carro blindado, pense quantos estarão presos nessa região, por falta de transporte público, por falta de dinheiro. Pense que Tia Dag faz a diferença transformando com ações pontuais o que o Estado não fez por décadas. Para que você não precise usar um carro blindado, é preciso andar na rua. Saber o que pensam e o que sentem os que ali vivem, ajudar a construir uma ponte entre o lado rico e o lado pobre do rio. Somente assim o ódio pode diminuir.

Os dois lados precisam se conhecer e dialogar, mas como isso pode acontecer se você estiver com seu carro blindado à prova de qualquer tipo de contato? O diálogo acontece se a rua for habitada por pessoas, se elas se relacionarem, se o medo não for o imperativo. A livre circulação entre os espaços pode mudar a cidade. Por isso, é preciso conhecer esse espaço em que ônibus não faz curva, porque o papo é reto e não tem discurso acadêmico.

A ponte parece um horizonte possível, no entanto, possível se construído pelos dois lados. O carro blindado não protege da mais valia de uns em detrimento de tantos. Pense bem quando for comprar um carro blindado, ele não o protegerá do mal-estar do afastamento e da miséria humana.

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Ficha técnica:

Versão completa em HD do documentário “A PONTE” 2006 / Instituto Ruhka / Sindicato Paralelo / Direção: Roberto T. Oliveira e João Wainer / Fotografia: João Wainer / Produtores Associados: Roberto T. Oliveira e Marcelo Loureiro / Trilha Sonora: Zé Gonzales e Daniel Ganjaman / Direção de Arte: Paulo Franco / Edição: André Dias e Alex Kundera / Produção: Claudio Gabriel e Julio Sena / Fotografia adicional: Lula Maluf, Arci Reis, Roberto T. Oliveira e Claudio Gabriel / Finalização: Alex Kundera / Mixagem: Daniel Ganjaman (Estudios YB) / Participações: Mano Brown, Ferrez, Floriano Pesaro, Paulo Lima, Padre Jaime, Fabio Gurgel, Saulo Garroux, João Batista Cardoso

Para ajudar acesse: casadozezinho.org.br

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André Fernandes trabalha com edição e produção de texto e de conteúdo digital. Escreveu dois livros de poemas Deriva (Hedra, 2008) e Habitar (Hedra, 2010). Colaborou no Almanaque Lobisomen (2010), organizado por Fabiano Calixto, Renan Nuernberger e Flavio Penteado. Tem interesse por artes, tecnologia e culinária.

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1 Comentário para A ponte

  • Milton Leal diz:
    22 de Ago 2011 às 13:06

    Os pessmistas dirão que a ponte nunca será construída. Mas os que atravessam o rio com seus 4×4 blindados um dia ficarão atolados e serão salvos pelos que sujam os pés para atravessar o rio. Nesse dia, talvez, ele venda o seu blindado para construir a ponte, nem que seja de madeira.


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