por Maitê Casacchi

publicado em: 14 de Abril de 2011

(foto: Marcos Camargo)

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Como resposta à pergunta – bastante repetida por estes dias – “O que você vai fazer na Virada Cultural?”, Carolina Pinzan, há cinco anos na programação da Virada com o Coletivo Urubus, responde categoricamente que fazer, fazer mesmo, ela não vai fazer nada. O que não quer dizer que os Urubus não estejam em momento de preparação esta semana, nem tampouco que os 11 da trupe não serão vistos pela cidade fim de semana que vem.

Mas quem quiser vê-los vai ter que olhar pra cima.

Desde 2005 subindo em árvores (eles bem provavelmente fazem isso desde pequenos, mas há seis anos sob as propostas da Carol, “tronco” do grupo), os Urubus se propõem a vivenciar longos períodos – de duas a 102 horas ininterruptas – na copa de alguma árvore. Enquanto estão lá, suspensos, eles vivem um tempo já um tanto deslocado de nós, seres tão enraizadamente urbanos. Eles vivem um tempo onde não há rodízio de carro, janelinha do MSN pulando, ticket do estacionamento ou o despertador do celular – ou seja, um tempo simplesmente humano. Como daqueles que, era atrás, iam tronco acima para se proteger de bichos e encontrar o almoço.

Mais do que a vivência de costume (se é que costumeiro pode ser um adjetivo aplicado a uma experiência como esta), os Urubus dão um outro tom à “ocupação” que está pra acontecer, dias 16 e 17 de abril, durante a 7a Virada Cultural paulista. Lambe-lambes com a frase “Hoje não tem espetáculo! A todas as árvores mortas pela ação do homem” envolverão as raízes da figueira-branca, aproximando o ato de um manifesto. “Mas não um protesto ambientalista, e sim uma ação que aponta para o que há de ancestral na ligação entre o homem e a natureza”, diz Carolina, podando a encenação e deixando florescer uma conexão primitiva – e praticamente abandonada.
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Qual é a árvore escolhida desta vez? Por quê?

Carolina Pinzan: É uma árvore bem ao lado do coreto da praça da República. Essa planta sentiu bastante a poda que a prefeitura fez e não está nada bem – até porque essas árvores comumente viram banheiro dos moradores de rua. A primeira coisa que a gente faz quando uma árvore está neste estado é procurar cuidar, dar uma mexida na terra, plantar algumas coisas em volta, dar um banho de ervas nela. Uma vez, ficamos quatro dias e meio em cima de uma árvore na praça da República que acabou morrendo depois da poda.
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Como é voltar a viver de forma urbanóide logo que vocês descem da árvore?

Carolina: Dificílimo. Costumo brincar que o mais difícil depois da vivência é voltar a calçar sapato – retornar a um ritmo que é muito artificial mas ao qual estamos acostumados. Lá em cima a gente enxerga que não precisa de nada que está aqui. Quando desço percebo um tanto da banalidade da minha vida. E, em geral, isso acontece com todo mundo que participa da vivência.
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Como as pessoas que param para ver o Coletivo Urubus se sensibilizam com a vivência de vocês? Ou os efeitos são mesmo aos que ficam lá em cima?

Carolina: Tem um episódio ilustrativo: uma vez na praça da República, estávamos em cima da árvore na semana mais fria do ano e ainda por cima caiu um toró de madrugada. Na manhã seguinte, estávamos ensopados e a chuva tinha levado tudo o que pudesse nos esquentar. As pessoas começaram a ir pra lá levando almofada, chocolate quente, cobertor. Percebi que, além da curiosidade racional, um lugar no inconsciente humano foi tocado, alguma coisa fez com que as pessoas se sensibilizassem. Depois de uns dias, se instaura uma esfera de amor – quem está ali assistindo começa a se relacionar de forma mais natural, as barreiras sociais diminuem. O medo e as amarras que as pessoas têm caem por terra: elas são levadas a um contato.
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E, como não poderia deixar de ser: que atividade cotidiana é mais difícil de se fazer na copa de uma árvore?

Carolina: Tomar banho. Nessas vivências, entendi a estética corporal dos moradores de rua. O seu pé vai ficando animalesco, e isso vai se tornando uma coisa normal. Chega uma hora que não é muito clara a divisão entre corpo e árvore – no final, tem formiga subindo no seu corpo e você nem percebe.

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Maitê Casacchi pretende, domingo que vem, fechar suas janelinhas do MSN e sentar ao pé da figueira-branca da praça da República, ali bem ao lado do coreto.

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