por Jana Tineo

publicado em: 6 de Setembro de 2011

Ao ler “Fela – esta vida puta” tive a sensação de estar em uma conversa frente a frente com o  próprio Fela Kuti. Pois a leitura correu solta, por conta de uma linguagem coloquial e acredito que por isso cria se essa ideia de um bate papo entre o leitor e o biografado. E se essa não foi a intenção do autor, ao menos em mim foi a sensação provocada.

O livro permite saber um pouco mais quem foi Fela Kuti e por meio de suas palavras vai se além, fazendo um passeio por Lagos e pela Nigéria de Kuti. E sob sua perspectiva se conhece um pouco mais sobre esse país e sua história, e sobre o culto dos orixás, pois lá, ao contrário do Brasil, é um culto familiar ligado à região de origem da família.

Fela Kuti é uma figura que em um primeiro momento parece ser bem excêntrico, e pode até o ser. Porém, para entendê-lo é necessário compreender a sociedade na qual ele se formou e é algo que pode parecer simples, mas não é. Isso por conta da complexidade de se entender o que é a Nigéria e a África, principalmente pós-colonização europeia. E se simplificar o entendimento desta sociedade estará sendo apenas mais um reducionista e não dará conta de saber quem foi Fela Kuti.

Esse artista genial, músico de uma criatividade ímpar e pai do afrobeat é fruto de seu tempo e de uma Nigéria colonizada e unificada a fórceps, assim como todo o território africano que foi dominado e colocado sob o julgamento de um continente atrasado e subdesenvolvido aos olhos do ocidente europeu.

Fela Kuti teve a oportunidade de enriquecer e ter uma vida glamourosa, mas optou por viver sua ideologia até o fim, criando assim a sua própria república, a República Kalakuta. Com isso chegou ao fanatismo que o afastou da realidade.

Kuti foi um artista que atuou além da arte. Foi um homem militante do pan-africanismo e lutou, com unhas e dentes, contra a opressão de vários governos ditatoriais que se instalou em sua Nigéria e transpôs todas as fronteiras, expressando assim sua raiva e suas angústias por meio de uma música alegre e vibrante, com letras críticas que denunciavam as atrocidades dos governantes nigerianos de seu tempo.

Essa biografia traz uma história que vai além da figura do artista e expõe um pouco do que foi, e talvez ainda seja, a Nigéria nos tempos atuais.

Ao terminar Fela- esta vida puta a sensação que tive foi que conheci o homem por detrás do mito e por alguns instantes acreditei estar frente a frente com ele, ouvindo seus pensamentos e tudo que viveu.  E assim pude compreender um pouco mais este homem que por mais incoerente que possa parecer teve suas razões para viver como viveu.

FELA – Esta Vida Puta
Carlos Moore
Nandyala Editora
www.nandyalalivros.com.br

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Jana Tineo, historiadora aficionada por biografias de cunho histórico e por isso acredita que a vida de um indivíduo está intrinsecamente ligada à história de uma sociedade e vice-versa.

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