“Aceite este lugar que ele também vai te aceitar”. É das primeiras recomendações dadas por Luiz Fernando Marques, o Lubi, 33 anos, integrante do paulistano Grupo XIX de Teatro, enquanto recebe o público para ver o espetáculo “Arrufos” na residência artística onde o coletivo desenvolve suas atividades desde março de 2004, a Vila Maria Zélia, localizada no Belenzinho, zona leste de São Paulo.
O lugar a que ele se refere são os assentos separados em duplas, disposição da plateia naquela noite, ainda que você possa se sentar ao lado de um desconhecido. Como proposta de interação e sintonia entre atores e público, sugere também que assim que todos estiverem bem acomodados, sucessivamente apaguem seus abajures, posicionados entre as almofadas de cada par. A luz do espetáculo fica por conta somente das luminárias, o que torna a experiência ainda mais íntima e aconchegante.
Os atores, ainda enclausurados num pequeno cômodo ao centro do palco, aos poucos dão novo significar àquele espaço claustrofóbico para debruçar-se sobre o amor como código mutável ao longo dos tempos. “Arrufos traz a questão do histórico, mas pelo viés do amor, de como essas questões se davam no âmbito da vida privada e dos relacionamentos, de como as relações amorosas se dão no Brasil nos últimos três séculos. Ele se propõe a fazer essa ousadia”, diz Lubi, em entrevista ao Uia Diário.
Em ano X, o grupo comemora aniversário de uma década com exposição na residência e mostra de repertório: “Hysteria” (2001), “Hygiene” (2005), “Arrufos” (2008) e “Marcha para Zenturo” (2010). Lubi salienta que, durante todo este período, nunca deixaram de apresentar qualquer uma delas.
Formado por ex-alunos da Escola de Arte Dramática (EAD), da ECA/USP, o que caracteriza e destaca a premiada companhia na atual cena teatral do país é o processo de criação e trabalho colaborativo – o da não hierarquia -, além da participação efetiva do público durante as peças. “Existe a criação e existe o repertório. Fazer e manter as peças em repertório dá tanto trabalho quanto criar uma. Todos nós escrevemos as peças e todos colaboram. Você poderia estar entrevistando qualquer um dos seis [Janaina Leite, Juliana Sanches, Luiz Fernando Marques, Paulo Celestino, Rodolfo Amorim e Ronaldo Serruya]. Eu estou aqui porque eles estão lá aquecendo para o espetáculo [Arrufos], o que caracteriza o Teatro de Grupo. Nem me apresento como diretor do XIX. O que diferencia é que meu talento artístico é para dirigir e o deles para atuar”, explica.
O Grupo XIX de Teatro surge no processo de criação da peça “Hysteria”, quando terminado o curso extracurricular de Antônio Araújo, no Centro de Artes Cênicas do CAC/USP. “As pessoas falavam tanto da cena do século XIX que colocamos este nome, mas tem uma brincadeira com o século, no sentido de não estarmos presos a ele. Tanto que fizemos o “Marcha para Zenturo” (que você pode ler aqui) para dizer que podemos fazer uma peça em 2441”.
A “brincadeira” mencionada por Lubi é levada a sério. E muito. “Somos um grupo de pesquisa que tem sua trajetória marcada por uma lei que só existe em São Paulo [Lei de Fomento ao Teatro Para a Cidade de São Paulo]. O teatro que pensa a cidade, não só em produzir o espetáculo ou em ter um projeto que seja artístico, mas um artístico que o revele. Neste sentido, Hysteria teve repercussão considerável [por parte do público e da crítica], mas que já tinha algumas questões relevantes como trabalhar com o espaço histórico, ser uma peça interativa e ter uma dramaturgia criada por nós a partir de histórias brasileiras do século XIX”, diz.
“Hysteria” relata a história de cinco mulheres diagnosticadas como histéricas e internadas no Hospício Carioca Pedro II (Praia Vermelha). A dramaturgia coletiva traz à tona as relações sociais da mulher brasileira na virada do século XIX/XX e suas trajetórias pessoais e únicas. A plateia é dividida em feminino e masculino. Enquanto as espectadoras partilham o convívio com as personagens, e são convidadas a participar do espetáculo, os homens são dispostos numa arquibancada à parte.
.
Vila Maria Zélia
A segunda montagem, “Hygiene”, resulta da resistência artística na Vila Maria Zélia, uma vez que o grupo tenha decidido investir e levar todo o processo criativo para o local. O espetáculo faz uma reflexão acerca dos imigrantes, operários, lavadeiras, meretrizes, ex-escravos, curandeiros e comerciantes do Rio de Janeiro. “Quem vem assistir a peça assiste duas coisas ao mesmo tempo: uma peça que fala do final do século XIX, com um reconhecimento dos seus avós, da miscigenação brasileira, de como se configurou essa cidade [São Paulo], mas também descobre uma mini-cidade dentro da própria cidade”.
Como as apresentações de “Hygiene” acontecem sempre nos períodos vespertinos, o público tem a oportunidade de conhecer casas, prédios públicos, armazéns, escolas, habitações, em sua maioria, em completo estado de abandono, da Vila Maria Zélia durante a encenação, que inclui pequenos trajetos. “Toda a relação não se limita ao espetáculo. Tem o artístico e o lúdico que fomos impregnando na Vila. Essa comunidade não vê só a peça, vê todo o processo e entende o que é um trabalhador de teatro. Eles tinham vergonha desses prédios, mas com a nossa chegada houve uma valorização do patrimônio. E não porque nós disséssemos que era bom”.
Datada de 1917, com 180 moradias e habitada por cerca de 500 pessoas, é a única vila operária da cidade com um patrimônio abandonado há mais de 30 anos. “Quando chegamos aqui e entendemos que a nossa função com a cidade era fazer as nossas peças, que já trazia essa questão da relação com o espaço histórico, mas revelando o espaço histórico que a gente achava que para esta cidade era muito importante. Primeiro porque, em termos de patrimônio, São Paulo destruiu quase tudo que tinha. Segundo porque é uma história operária, uma história que conforma esta cidade. Apesar da Avenida Paulista estar cheia de bancos, na verdade, quem construiu isso aqui foram os operários. O que diferenciou a cidade do resto do país e que a fez despontar à frente economicamente das outras é ter se configurado como uma cidade operária. E terceiro, por esta situação de abandono revelar uma postura da própria cidade, de como ela lida com sua própria história e com o seu patrimônio”, justifica.
O trabalho desenvolvido pelo grupo inclui parceria com a Associação Cultural Vila Maria Zélia, que oferece cinema ao ar livre, oficinas aos moradores e limpeza dos espaços abandonados; além da residência artística em si, são ações que possibilitaram a revitalização do local e o acesso à arte por intermédio do XIX, que convida outros grupos teatrais a apresentações no espaço. “Atualmente, a gente vive com essas três questões: a criação coletiva propriamente dita, as oficinas e os Núcleos de Pesquisa, que são como oficinas, mas não no sentido de ensinar a pessoa a fazer teatro, mas de compartilhar este espaço com outros artistas, de processos teatrais mesmo”.
Os seis núcleos são: “Possibilidades para uma Cena Documental”, orientado por Janaina Leite; “Pesquisa Linha Tênue”, Juliana Sanches; “Esquadros – A cena, a viagem e a invenção”, Luiz Fernando Marques; “Ópera na Vila: malandros e mendigos, quanto vale três vinténs?”, Paulo Celestino; “O Ator em Processo – Negativo da Memória”, Rodolfo Amorim; e “O ator dramaturgo – De viés”, Ronaldo Serruya. A cada núcleo, 20 participantes. “São 120 pessoas que passam semanalmente pela Vila e no final do ano apresentam seus resultados. Então, não é um trabalho só desses seis artistas. Neste sentido, colocamos o espaço dentro do mapa cultural da cidade. A Vila deixou de ser um espaço abandonado para fazer parte deste mapa”.
O movimento que ali acontece transcende a questão do grupo e tenta, de certa maneira, não só devolver o espaço à cidade de São Paulo, mas no sentido de como colocar o espaço em discussão e revelar sua vocação, seja para a cultura, em especial as artes cênicas, seja para o empreendedor. “Nesses sete anos, criamos uma história com essa comunidade, que passa por este traço cultural. E não é um cultural qualquer: é um traço que passa pela memória, pela história brasileira, pelo resgate da questão da imigração, que leva em conta o patrimônio e não se sobrepõe ao patrimônio. Então, as nossas peças são em relação a este patrimônio, não o espaço qualquer. A gente entende que as nossas obras tragam, seja no âmbito da vida privada, como em “Arrufos”, ou no âmbito das arquiteturas, como em “Hygiene”. Aqui, nosso desejo, é o que já está acontecendo: uma possibilidade dentro do espaço. Estamos aqui para revelar este espaço”, diz.
A cidade agradece e aceita este outro lugar, além do que é mencionado por Lubi no início da matéria.
.
Próximas atrações:
HYGIENE
Censura: 14 anos
30/04 e 01/05, às 16h
R$ 30 inteira e R$ 15 meia
HYSTERIA
Censura: 14 anos
07, 08, 14 e 15 de maio, às 16h
R$ 30 inteira e R$ 15 meia
Os ingressos podem ser adquiridos pela www.bilheteria.com ou na Vila Maria Zélia
Informações pelo site www.grupoxix.com.br ou pelo telefone (11) 2081-4647
Endereço: Rua Cachoeira, 50 – Belenzinho (Zona Leste)
email: producao@grupoxix.com.br
.

1 Comentário para Grupo XIX de Teatro completa dez anos com mostra de repertório na Vila Maria Zélia
Trackbacks