(bom saber: há PEQUENOS spoilers neste texto – portanto, caso você não goste de saber absolutamente nada antes de ver o filme é bom nem começar)
Saí do cinema em um pequeno estado de torpor depois de ver o último filme de Lars von Trier, Melancolia. Um arrepio na espinha depois daquilo que – vou arriscar dizer – pode muito bem ser o melhor final de um filme que já vi. A lua cheia no céu ajudou a compor o cenário que se formou em minha mente com todos aqueles pensamentos que devemos carregar depois de assistir à uma obra prima. Estava muito feliz por ter visto aquilo no cinema e triste por saber que nunca mais teria a sensação de ver aquilo pela primeira vez (como tinha acabado de acontecer). Estava me sentindo vazio e estranho, como Lars von Trier quer que a gente se sinta depois de seus filmes – mas nunca conseguiu dessa forma (pelo menos não comigo).
Não sou fã de Lars von Trier. Acho Dogville ok (Manderley melhor) e Anticristo um bom filme. Todos têm fotografia incrível (muito inspirada por Andrei Tarkovsky) e atuações marcantes (minhas favoritas: Björk em Dançando no Escuro e Nicole Kidman em Dogville). Mas Melancolia é, sem dúvida, o seu filme mais bonito. O mais poético.
Começa com um prólogo lindíssimo, com imagens estáticas daquilo que, já sabemos, é o final de tudo, e com “Tristan und Isolde”, de Richard Wagner, música que se encaixa perfeitamente na atmosfera do filme – e que é usada – muito bem – várias vezes ao longo dele. Kirsten Dunst encara a tela com uma expressão assustadora de tristeza e Charlotte Gainsbourg corre pelo campo de golfe, carregando o filho nos braços. Kirsten Dunst olha para as mãos que soltam uma fumaça branca. Sua expressão é de tranquilidade.
Von Trier começa nos enganando. Kirsten Dunst é a noiva que demora para chegar com o noivo na festa de seu casamento. Os dois se atrapalham com a limosine, mas estão se divertindo. Temos a sensação de que é um casal feliz, “normal”. Mas logo isso muda. Vemos que há algo errado com a noiva e o diretor nos guia por vários caminhos. Podemos imaginar que ela está assim, “estranha”, por causa do homem com quem vai se casar, um marido perfeito (quando faz o discurso para os convidados, diz apenas obviedades: “eu te amo”, “não posso viver sem você” etc). Podemos imaginar que está assim por causa do pai, velho bêbado (John Hurt) que nunca a escuta. Também imaginamos que está assim por causa da mãe, velha burguesa (Charlotte Rampling) que só pragueja contra tudo (tipo “eu não acredito em casamento”, entre outros clichês).
Mas não. Ela começa a agir de maneira estranha quando vê uma estrela diferente no céu.
O filme é dividido em duas partes: Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg). A primeira se passa toda durante a festa de casamento. E, estranhamente, ninguém menciona a iminência do fim do mundo, com a aproximação do planeta Melancolia, em rota de colisão com a Terra. É como se isso não existisse. E é aí que está o tema mais forte do filme: a negação da morte.
Justine é a única personagem sã do filme. A única que não nega a morte. Em determinado momento do filme (acredito que é exatamente no final da primeira parte), ela vira para a sua irmã, Claire, e diz “eu tentei, eu tentei”. Isso significa muito sobre ela. Justine tentou uma vida normal: um marido devoto que gasta as suas economias em um pequeno pedaço de terra para eles, um chefe escroto (que ela também dispensa em determinado momento), bons amigos. Não conseguiu. Suas fugas constantes mostram isso. Em outro momento – já na segunda parte – ela diz que “sabe coisas” e que o mundo vai acabar. Neste momento sabemos que não há mais saída e Claire (supostamente o personagem “humano”, que representa a Terra) também sabe.
Claire, assim como todos os outros – com exceção de Justine -, vive negando a morte. Pergunta para o marido (Kiefer Sutherland) se tudo vai ficar bem. Diz para o filho pequeno que não há com o que se preocupar e imagina que uma boa maneira de apreciar o fim (quando ela aceita isso) é tomando vinho e ouvindo Beethoven no terraço, o que Justine acha uma “grande bosta”.
(nota: a partir de agora há GRANDES spoilers no texto. Caso você não tenha visto o filme é ALTAMENTE RECOMENDÁVEL que você não continue – mesmo que você não se importe em saber o final antes de ver)
O garoto, já no final, percebe que o mundo vai acabar. Sua mãe, Claire, não sabe o que fazer. Justine (a Melancolia) permanece calma o tempo inteiro. E é a única que sabe como confortar o garoto. Sugere que construam uma “caverna mágica” e que a sua tia “quebra-aço” é a única que consegue fazer. Aí nos aproximamos de um dos momentos mais mágicos da história do cinema, o fim do mundo de Lars von Trier. Os três dão as mão dentro da tal “caverna”, que nada mais é do que alguns pedaços de pau colocados em forma de cabana. Claire chora. A expressão do garoto é de paz, graças à Justine, que diz que tudo vai ficar bem ali dentro. A explosão chega. A música sobe. A música pára. Tela preta. Começam os créditos. Silêncio na sala.
Obviamente o final não seria o que é (teria o impacto que teve) se Lars von Trier tivesse construído o filme de maneira diferente. A maneira como tudo é feito para chegar ao final épico é o que conta. E o que torna o filme perfeito.
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* Texto publicado originalmente em www.acentonegativo.blogspot.com
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1 Comentário para Melancolia (2011)*
11 de Out 2011 às 11:24
não sei ainda bem porquê, mas assim que o filme acabou fui tomada por uma crise de riso, me achei um tanto estranha, mas não fui a única no cinema. ainda estou tentando descobrir porque, já que achei o fime belíssimo, com um final ótimo, roteiro original. mas enfim, talvez tenha negado o fim. rs