por Neomisia Silvestre

publicado em: 25 de Abril de 2011

“É aqui a fila do Cabaré?”, pergunta o moçoilo, agora, último da fila. Adiante, 23 pessoas que chegaram com a antecedência recomendada. Atrás, a fila só crescia. Sob orientação dos funcionários, logo eram duas filas desajeitadas, uma ao lado da outra. Dá até para conversar com o desconhecido paralelo. A fila formada é para ver “Cabaret Luxúria”, espetáculo musical dirigido pelo ator Bruno Perillo (Grupo Folias d’Arte), que integra o elenco junto com Rosi Campos e Rachel Ripani, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro de São Paulo, como parte da programação de aniversário dos 10 anos do CCBB-SP.

O inferninho ali começa é na dita fila, quando um dos pacientes – porque é preciso mesmo muita paciência para aguardar 45, às vezes mais minutos, na fila de um espetáculo com ingressos gratuitos -, quando um “coleguinha”, o chamemos assim, resolve alertar uma mulher de que a amiga dela entrou na frente, não dele, sem ter que pegar fila, comprometendo assim o bom andamento da coisa. E que atire a primeira senha quem nunca o fez antes. Quem nunca botou o “coleguinha” atrasado e aguardado na sua vez da fila? Na minha, neste dia, ao menos cinco encurtaram a rota. Tudo bem… Todos estão ansiosos por uma noite no cabaré. “Teatro é tão caro, né, menina?”, comenta a mesma mulher que deixou duas amigas passarem na frente. “Quando é de graça tem que aproveitar”, completa ela. Dou risada, prossigo leitura e os cochichos-reclamações aumentam. Desta vez, não diretamente.

À medida que ela, a fila, enfim começa a andar e a passar ao meu lado, a cada boca vermelha, começo a imaginar como seria o figurino do público para adentrar tal espetáculo: cintas-ligas, corpetes, gravatas borboletas, luvas, preto, muito vermelho e preto. Mas o “fetiche” passou rápido. O lugar não era bom: balcão. O suficiente para a fileira de trás começar a se indignar: “Mas eu não estava tão no fim da fila pra pegar um lugar tão ruim”. O espetáculo começa. Percebemos todos que o lugar não era assim de todo ruim, já que o lounge preparado no palco-cenário era de boa visibilidade ao show que estava porvir.

Cortinas e uma iluminação completamente avermelhada creditavam: Chegamos à boate. Fica! Vai ter números de dança e música. As instrumentistas: mulheres revestidas de seda, couro, cílios postiços, rendas, vermelhos batons, plumas, perucas à la Amélie Poulain, meias em arrastão e altos saltos. Piano, trombone (sempre confundo trombone com trompete – dislexia instrumental), contrabaixo, violino e bateria compõem “Tango e Perfume”, banda formada só por mulheres, responsável pela sonorização de todo o espetáculo. Dentre algumas do repertório, elas entoam “Mandelay”, “Ne Me Quitte Pas”, “O Último Tango em Paris”, “Atrás da Porta”, “O Meu Sangue Ferve por Você” e outros temas de amor.

O amor? Cá, faremos dele, mas na sua versão mais desejável, sensual, promíscua, sadomasoquista, debochada e cínica: ingredientes apimentados curtidos em pura luxúria. E se o inferno é feminino, o demônio que manda ali tem cabelos frisados e ruivos, pernas grossas e voz grave. A personagem Lilith é interpretada por Rosi Campos com absoluto distanciamento da Rosi que muitos ainda guardam no imaginário, a de Bruxa Morgana, da série infantil Castelo Rá-Tim-Bum, da TV Cultura. No palco, o trono de Lilith é o salto que a suporta durante os 70 minutos em cena, a mediar a trama entre Mephisto (Bruno Perillo), único sujeito homem do espetáculo, e Justine (Rachel Ripani), o lindo e sexy anjo caído que surge ao macho da vez como possibilidade de libertação. “Faça com que ela te ame, e eu te deixo ir”. Pacto feito com o diabo de curvas.

Condenado à danação eterna naquele inferno do sexo oposto, onde Mephisto é provocado constantemente por conta dos clichês masculinos, ele pagará o preço por todos os homens do universo. Todos que um dia fizeram promessas não cumpridas a uma mulher, todos que deixaram a desejar na hora H, todos que eram comprometidos e amantes ao mesmo tempo, todos que um dia feriram e enganaram, todos que transformaram boas almas femininas em vingança, desequilíbrio, histeria e descrença amorosa.

Com referências em escritores como Caio Fernando Abreu, Martha Medeiros, Anaïs Nin, Marquês de Sade, Nelson Rodrigues, Shakespeare, Goethe e, principalmente, Neil Gaiman, a atriz Rachel Ripani, atualmente em cartaz no também musical “Mamma Mia!, no Teatro Abril, completou a pesquisa que resultou na montagem de “Cabaret Luxúria”, seu texto de estreia, para que sete mulheres pudessem pisar o território do desejo e falar de amor nada bonzinho e bem comportado. O coração é um bordel.
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SERVIÇO

Cabaret Luxúria
Texto: Rachel Ripani
Direção: Bruno Perillo
Elenco: Rosi Campos, Rachel Ripani, Bruno Perillo e Banda Tango e Perfume (Joyce Peixoto, Vivianne Franco, Camila Bomfim, Fabiana Fonseca e Moema Lima)
Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Álvares Penteado, 112. Telefone: 3113-3651) Terça a quinta, 19h30 (até 2/6) / 16 anos / 70 minutos
R$ 6 (Nos dias 19, 20 e 21, semana de estreia, o espetáculo teve distribuição gratuita de ingressos, período em que a repórter foi ver a peça).

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Neomisia Silvestre é jornalista com pé no lirismo, nas artes cênicas e na dança.

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