por André Fernandes

publicado em: 20 de Outubro de 2011

Sempre que uma pessoa próxima desaparece emergem lembranças. Essas lembranças podem levar a refletir individualmente sobre a vida e a questionar paradigmas.

Recentemente, perdi um tio. Não o via há tempos, mas sabia da sua dor frente a um câncer, que já havia se generalizado. O anúncio da morte me deixou muito triste, mas também feliz, pois, sabia, o sofrimento havia acabado.

Após o velório, voltei para casa e decidi assistir ao filme Cinema Paradiso. Assim, como das outras vezes, foi muito forte ver Totó emocionado diante da demolição do cinema e dos trechos censurados pelo padre da cidade. Uma memória quente, permeada por travessuras infantis e cenas de beijos apaixonados.

O filme remeteu-me imediatamente a inúmeras situações engraçadas: quando eu e meus primos prendíamos o tio em seu quarto, enfiando o cabo de um pente azul na fechadura; quando ele reclamava que o almoço não estava pronto a meio-dia em ponto; ou ainda, quando adulto ele me ensinara um pouco de latim. De um modo ou de outro, o filme retrata uma atmosfera ingênua muito semelhante à que havia experimentado nas férias escolares.

Dias depois, notei, além da ausência, uma memória que não conhecia, um tempo mais afeito a situações patéticas e delicadezas.
Da mesma forma, na semana passada, quando soube da morte de Leon Cakoff (1948-2011), pensei no impacto da perda de um homem público, ativista político e cultural, que combateu os generais e criou uma referência e um patrimônio cultural para inúmeros paulistanos (eu inclusive), a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Esse homem feito de sonho e tempo relata aqui a dificuldade de combater um governo militar, de empreender um sonho e de conviver com um câncer. Uma evidência clara de quanto a vida e a política são indissociáveis.

A um e a outro agradeço por mostrar o quão a delicadeza de alguns gestos e a ingenuidade irreverente podem produzir pessoas melhores. Pode ser que isso seja só proselitismo, pode ser que haja alguma forma de seguir adiante.

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André Fernandes trabalha com edição e produção de texto e de conteúdo digital. Escreveu dois livros de poemas Deriva (Hedra, 2008) e Habitar (Hedra, 2010). Colaborou no Almanaque Lobisomen (2010), organizado por Fabiano Calixto, Renan Nuernberger e Flavio Penteado. Tem interesse por artes, tecnologia e culinária.

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