por Nirso

publicado em: 8 de Dezembro de 2010

Primeiramente, já aviso que estou descrevendo apenas uma das inúmeras mutações sociais que rolam em São Paulo. Como em qualquer metrópole, a terra da garoa (tóxica) está em constante e acelerada transformação. É quase impossível considerarmos todos os pontos de vista e todos as influências.

Mas enfim, vou tentar responder a pergunta….

As baladas caretas sempre existiram aqui na cidade. Bares e discotecas de “mauricinhos malhados e bronzeados” e “patricinhas de cabelo chapinha e quilos de maquiagem” sempre tiveram seu espaço capital. Basta você ir em bairros como a Vila Olímpia, Moema e Itaim pra ter uma idéia do que estou falando.

Ao mesmo tempo sempre existiram as baladas “alternativas”, onde a música e todo o conceito do lugar estavam mais antenados no que estava rolando culturalmente (e musicalmente) no mundo. No início elas eram poucas e eram realmente underground. Habitavam regiões da cidade que não eram muito bem vistas e eram frequentadas por punks, góticos, gays, bicudos, curiosos, e tudo o mais.

Mas com o passar do tempo, com a globalização, com a internet e tudo o que influenciou a sociedade paulistana de classe média (alta), essas baladas começaram a se proliferar frutiferamente e cairam no gosto de um público até então desconhecido para estes estabelecimentos.

Foi então que um fenômeno muito comum na sociedade ocidental ocorreu na noite paulistana. Falando direta e grosseiramente, os ricos começaram a gostar das “festas de mau gosto” das classes mais baixas. Assim como no começo do século XX, quando a burguesia brasileira começou a se interessar pelo samba e pelo choro feito pelos negros alforriados, as classes altas de São Paulo começam a se interessar pela cultura dos “renegados da sociedade paulistana contemporânea”.

Ao mesmo tempo em que essa mutação social era benéfica para os grupos até então hostilizados, ela foi cruelmente deturpadora dos verdadeiros sentidos e significados dessas manifestações culturais. É por causa desse fenômeno que temos os “Punks de Boutique”, os “Hippie Chic”, os “Pastilheros Marombados” e inúmeros outros…

Os bairros do centro e próximos a linhas de trem, assim como as baladas alternativas de Sampa, foram se transformando com a chegada desse novo público, com alto poder aquisitivo e um conhecimento superficial das culturas pós modernas urbanas.

Os bairros foram ficando cada vez mais habitados e conhecidos, e portanto, mais caros. O que não quer dizer que foram ficando mais planejados e organizados, não. Pelo contrário, são tão mal conservados quanto antigamente.

Obviamente as baladas também foram ficando cada vez mais caras, mais caretas e menos excitantes. Agora temos seguranças engravatados, comandas de cartão e até mesmo comandas que registram as nossas digitais. Temos fila pra pagar e fila pra sair. E fila pra fumar um cigarro. Pagamos o valor de 5 latinhas de cerveja por uma mísera long neck. E ainda pagamos caro pra entrar (nem puteiro cobra tão caro).
Qual foi a solução natural das pessoas que acharam tudo isso muito chato e ainda assim queriam se divertir? Bom, vamos fazer nossas próprias festas, onde vai ter cerveja pra todo mundo, não paga pra entrar, pode fumar a vontade e não tem fila pra nada (a não ser pro banheiro).

Isso quer dizer o que? Festinha em Casa!

Obaaa. Ótimo. Nada melhor.

Mas os “produtores” da noite paulistana, sejam eles donos de balada, produtores de festas, hostesses, etc., que não são bobos nem nada, já estão ligados no movimento que esta acontecendo. E consequentemente, o que mais vemos pipocando por ai hoje em dia na noite paulistana? Baladas com cara de “lá em casa”. Baladas que estão alugando sobrados, casas e afins para promoverem festas que não tem aquele perfil de “discoteca” ou “casa de show”. E, obviamente, o que você acha que está acontecendo com essas baladas?

A mesma coisa de sempre.

A serpente que engole o próprio rabo.

tsc. tsc.

.

Nirso é músico, DJ e acha que as empreendedoras imobiliárias e os novos-ricos vão acabar com a cidade de São Paulo em menos de 10 anos. Isso se o mundo não acabar em 2012. Rezemos pelo melhor.

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4 Comentários para Porque a balada em São Paulo está cada vez mais careta?

  • Livia Büchele diz:
    09 de Dez 2010 às 19:58

    Da-le Nirso! É isso aí mesmo, falou e disse! Uma balada que estará sempre aberta a sediar seus magnificos sets e não se venderá nunca: Balada dos Peixeeeeeeees!


  • ismael diz:
    09 de Dez 2010 às 20:27

    bem isso mesmo. so faltou dizer que os djs também foram influenciados pelos playboys qualquer-nota que fazem questão de escutar so as musicas que eles ja sabem cantar o refrão.


  • Cezar diz:
    12 de Dez 2010 às 14:16

    Falo e disse Nirso e concordo contigo.
    e quando tiver aquela festa, me chama ai eu vou pra Galera…
    … e pra torcida do corinthians aquele abraço…


  • Diogo Dantas Silva diz:
    21 de Jun 2011 às 20:29

    Mandou bem Nirso!


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